ANAIS NIN
O ímpeto de crescer e viver intensamente,
foi tão forte em mim, que não consegui resistir a ele.
Enfrentei meus sentimentos.
A vida não é racional!
É louca e cheia de mágoa.
Mas não quero viver comigo mesma.
Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal.
Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos,
beber um Benedictine ardente.
Quero conhecer pessoas perversas, ser íntima delas.
Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela.
Eu estava esperando.
Esta é a hora da expansão, do viver verdadeiro.
Todo o resto foi uma preparação.
A verdade é que sou inconstante,
com estímulos sensuais em muitas direções.
Fiquei docemente adormecida por alguns séculos,
e entrei em erupção sem avisar.
A FILOSOFIA NA ALCOVA
O ímpeto de crescer e viver intensamente,
foi tão forte em mim, que não consegui resistir a ele.
Enfrentei meus sentimentos.
A vida não é racional!
É louca e cheia de mágoa.
Mas não quero viver comigo mesma.
Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal.
Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos,
beber um Benedictine ardente.
Quero conhecer pessoas perversas, ser íntima delas.
Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela.
Eu estava esperando.
Esta é a hora da expansão, do viver verdadeiro.
Todo o resto foi uma preparação.
A verdade é que sou inconstante,
com estímulos sensuais em muitas direções.
Fiquei docemente adormecida por alguns séculos,
e entrei em erupção sem avisar.
A FILOSOFIA NA ALCOVA
Marques de Sade
(Excerto)
Aos Libertinos
Voluptuosos de todas as idades e de todos os sexos, é a vós somente que dedico esta obra;
alimentai-vos de seus princípios que favorecem vossas paixões; essas paixões que horrorizam os
frios e tolos moralistas, são apenas os meios que a natureza emprega para submeter os homens
aos fins que se propõe. Não resistais a essas paixões deliciosas: seus órgãos são os únicos que
vos devem conduzir à felicidade.
Mulheres lúbricas, que a voluptuosa Saint-Ange seja vosso modelo; segui seu exemplo,
desprezando tudo quanto contraria as leis divinas do prazer, que dominaram toda sua vida.
Jovens, há tanto tempo abafadas pelo liames absurdos e perigosos duma virtude fantástica,
duma religião nojenta, imitai a ardente Eugênia; destruí, desprezai, com tanta rapidez quanto
ela, todos os preceitos ridículos inculcados por pais imbecis.
E vós, amáveis devassos, vós que desde a juventude não tendes outros freios senão vossos
desejos, outras leis senão os vossos caprichos, que o cínico Dolmancé vos sirva de exemplo; ide
tão longe quanto ele, se como ele desejais percorrer todas as estradas floridas que a lubricidade
vos prepara; convencei-vos, imitando-o, de que só alargando a esfera de seus gostos e suas
fantasias, e, sacrificando tudo ã volúpia, o infeliz indivíduo, conhecido sob o nome de homem e
atirado a contragosto neste triste universo, pode conseguir entremear de rosas os espinhos da
vida.
PRIMEIRO DIÁLOGO
Madame de Saint Ange, Cavalheiro de Mirvel..
MADAME - Bom dia meu irmão; Dolmancé não vem? MIRVEL - Chegará às quatro em ponto.
Como jantamos somente às sete, teremos muito tempo para conversar.
MADAME - Sabe que me arrependo um pouco da minha curiosidade e dos projetos obscenos
que fizemos para hoje? Você é muito indulgente, querido! Justo quando eu deveria ser bem
comportada é que se me aquece a imaginação, e mais libertina me tomo: como você me perdoa
tudo, fico cada vez mais mimada... Aos vinte e seis anos, já deveria ser uma beata e não passo
da mais devassa de todas as mulheres... Não se pode ter uma idéia de tudo quanto imagino, de
tudo quanto quisera fazer; acreditava que, me limitando às mulheres, conseguiria tranquilidade;
que meus desejos, uma vez concentrados em meu sexo, não transbordariam sobre o seu.
Quiméricos projetos, meu amigo, os prazeres de que desejava me privar pareceram-me ainda
mais tentadores e me apercebi de que, quando se nasceu para a libertinagem, é inútil querer
dominar-se: os fogosos desejos irrompem com mais força. Enfim, querido, sou um animal
anfíbio: gosto de tudo, tudo me diverte; quero conhecer todos os gêneros; confesso que é uma
extravagância completa de minha parte querer conhecer esse singular Dolmancé, que, como diz
você, nunca possuiu as mulheres como o costume o prescreve, que, sodomita por princípio,
idolatra o próprio sexo e só se rende ao nosso sob a cláusula especial de lhe oferecermos os
encantos que está acostumado a encontrar entre os homens. Veja, meu irmão, que bizarra
fantasia! Quero ser o Ganimede desse novo Júpiter, quero gozar de seus gostos, de seus
deboches, quero ser a vítima dos seus erros. Saiba que, até agora, dessa maneira só a você me
entreguei, por prazer, ou a certo criado que, pago para me possuir desse modo, só o fazia por
interesse. Hoje, não é mais por complacência nem por capricho, mas sim por puro gosto... Creio
que haverá uma notável diferença entre as duas experiências e quero conhecê-la. Descreva-me
bem Dolmancé, afim de que o tenha na idéia antes que ele chegue; sabe que o conheço apenas
por tê-lo encontrado durante alguns minutos numa casa onde estivemos.
MIRVEL - Dolmancé acaba de completar trinta e seis anos; é alto, lindo aspecto, olhos vivos e
espirituosos; mas algo de dureza e de maldade transparece nos seus traços. Tem dentes
lindíssimos; um certo dengue no mover a cintura e no andar, certamente pelo hábito de imitar as
mulheres. É elegantíssimo, tem voz agradável, várias habilidades e sobretudo espírito filosófico.
MADAME - Bem, espero que ele não acredite em Deus...
MIRVEL - Que idéia! É o mais célebre ateu, o homem mais imoral, a corrupção mais completa
e integral, o mais celerado dos indivíduos que possam existir.
MADAME - Como tudo isso me excita! Vou adorar esse homem. Quais os seus gostos?
MIRVEL - Você bem sabe: as delícias de Sodoma, tanto passivas como ativas, são-lhe sempre
agradáveis. Prefere os homens, e se consente em se divertir com mulheres é sob a seguinte
condição: trocar de sexo com ele, prestando-se a todas as inversões. Falei-lhe de você, eu o
preveni de suas intenções; aceita as suas propostas mas, por sua vez, avisa-a das suas condições.
Você não obterá nada dele se pretender induzí-lo a outra coisa. "O que consinto em fazer com
sua irmã", diz ele, "é uma extravagância... Uma brincadeira que me repugna e à qual só me
entrego raramente e tomando muitas precauções".
MADAME - Repugnância... Precauções... Que interessante a linguagem desses moços amáveis!
Nós, as mulheres, temos também palavras como estas, particularíssimas, que provam o profundo
horror que nos domina por tudo quanto não se refira ao culto de nossa devoção... Diga-me, meu
caro, ele já o possuiu? Com seu lindo corpo e seus vinte anos pode, creio, cativar um homem
como esse!
MIRVEL - Creio que posso revelar as extravagâncias que juntos praticamos: você tem
suficiente espírito para não os censurar. Geralmente amo e prefiro as mulheres; entrego-me a
este gozo bizarro apenas quando tentado por um homem excepcionalmente encantador. Nesse
caso nada há que eu não faça. Não estou absolutamente de acordo com a ridícula pretensão dos
nossos rapazolas que respondem com bengaladas a semelhantes propostas. O homem é senhor
de suas próprias inclinações? Não devemos jamais insultar os diferentes, mas lamentá-los; os
seus defeitos são defeitos da natureza. Eles não são culpados de ter nascido com gostos
diferentes, assim como ninguém tem culpa de ser coxo ou bem feito de corpo. Aliás, quando um
homem confessa que nos deseja, diz-nos, por acaso, uma coisa desagradável? Evidentemente
que não; é um cumprimento que ele nos faz; para que, pois, responder com injúrias ou insultos?
Só os imbecis pensam assim, nunca um homem razoável dirá coisa semelhante. Isto acontece
porque o mundo está povoado por idiotas que se julgam ofendidos quando a gente os considera
aptos para o prazer e que, mimados pelas mulheres, sempre ciumentas de seus direitos,
imaginam ser os Dom Quixotes desse falsos privilégios, brutalizando aqueles que não os
reconhecem.
MADAME - Beije-me, meu caro. Eu não o reconheceria como meu irmão se você pensasse de
outra maneira. Dê-me, entretanto, mais informações sobre o aspecto desse homem e sobre os
prazeres que juntos gozaram.
MIRVEL - Dolmancé tinha sido informado por um dos meus amigos do soberbo membro que
possuo, e fez com que o Marquês de V. nos convidasse a cear. Uma vez em casa do Marquês
tive que exibi-lo; pensei, a princípio, que fosse apenas curiosidade mas em breve percebi que
era outro o motivo quando Dolmancé voltou-me um lindo cu, pedindo-me que gozasse dele. Eu
o preveni das dificuldade da empresa. Ele nada temia. "Posso suportar um aríete", disse-me, "e
não tenha você a pretensão de ser o mais temível dos homens que o penetraram". O Marquês
estava presente e nos estimulava, acariciando, apertando e beijando tudo que nós puxávamos
para fora.
Ponho-me a prepará-lo enquanto apresento armas... Mas o Marquês me avisa: "Nada
disso, você tiraria metade do prazer que Dolmancé espera; ele quer uma violenta estocada, quer
que o rasguem". Pois será satisfeito, exclamei, mergulhando cegamente no abismo... Pensa,
minha irmã, que tive trabalho; nada disso, meu membro enorme desapareceu sem que eu
sentisse e eu toquei o fundo de suas entranhas sem que o tipo desse qualquer sinal de
sofrimento. Tratei-o como amigo, torcia-se no excesso da volúpia, dizia palavras doces, e
parecia felicíssimo quando o inundei. Quando me desocupei dele, voltou-se com os cabelos em
desordem e o rosto em chamas: veja em que estado você me pôs, querido disse-me, oferecendo
um membro seco e vibrante, muito longo e fino. Suplico-lhe, meu amor, queira servir-me de
mulher depois de ter sido meu macho, para que eu possa dizer que nos seus braços divinos
experimentei todos os prazeres do culto que venero. Cedi a seu pedido achando tudo isso
bastante fácil, mas o Marquês, tirando as calças, suplicou-me que o enrabasse enquanto era
fodido pelo seu amigo. Tratei-o como Dolmancé, que me devolvia ao cêntuplo todos os golpes
com os quais eu abatia nosso parceiro e logo me derramou no fundo do cu o celeste licor com
que eu regava ao mesmo tempo o eu do Marquês de V.
MADAME - Que prazer delicioso deve ser esse entre duas picas! Dizem que é gostosíssimo!
MIRVEL- Certamente, meu anjo, é um orifício delicioso, mas tudo isso não passa duma
extravagância que eu nunca preferirei ao prazer que me dão as bocetas.
MADAME - Pois bem, meu caro, para compensar hoje sua delicada atenção, vou entregar aos
seus ardores uma jovem, virgem e linda como os amores.
MIRVEL - Como? Então Dolmancé vai encontrar mais uma mulher nesta casa?
MADAME - Trata-se de educar a menina que conheci no convento o ano passado, enquanto
meu marido fazia uma estação de águas. Lá nada ousamos fazer, éramos o alvo de todos os
olhares. Prometemos reciprocamente nos unirmos assim que fosse possível. Perseguida por esse
desejo, para satisfazê-lo, travei conhecimento com toda a família. O pai é um libertino que eu
consegui cativar. A linda menina chega hoje e passaremos dois dias juntas, dois dias deliciosos.
A maior parte desse tempo empregarei em educá-la. Dolmancé e eu inculcaremos nessa linda
cabecinha todos os princípios da libertinagem mais desenfreada; abrazá-la-emos com o nosso
ardor. Alimentando-a com a nossa filosofia, inspirar-lhe-emos nossos desejos. Quero juntar a
prática à teoria, quero demonstrar, à medida em que eu dissertar. Você está destinado a colher
os mirtos de Citéra e Dolmancé as rosas de Sodoma. Terei dois prazeres a um tempo, dando
lições e gozando eu própria dessas volúpias criminosas, inspirando esse gosto x amável ingênua
que cairá na minha rede. Não acha esse projeto digno de minha imaginação?
MIRVEL - Essa idéia só a você poderia ocorrer, prometo-lhe representar com perfeição o papel
encantador que me destina. Ah, malandra, como você vai gozar fazendo a educação da pequena!
Que delícia corrompê-la, abafar nesse jovem coração todas as sementes de virtude e religião, aí
colocadas por suas mestras. Na verdade, mesmo para mim, essa idéia seria ousada.
MADAME - Nada pouparei para pervertê-la, para degradá-la, para pôr de pemas para o ar todos
os princípios de moral que já começam a atordoá-la. Em duas lições quero que se tome tão
celerada, ímpia e debochada como eu. Avise Dolmancé, ponha-o ao par do que se deve passar.
Que o veneno da sua imoralidade circule nesse jovem coração junto ao que eu mesma lá
instilarei. Havemos de desenraizar em poucos instantes todas as sementes de virtude que lá
pudessem germinar.
MIRVEL - Seria impossível encontrar homem mais adequado. A irreligião, a impiedade, a
desumanidade, a libertinagem, fluem dos lábios do Dolmanoé como outrora a unção mística
fluía dos lábios do arcebispo de Cambrai; é o mais inveterado sedutor, o homem mais
corrompido e perigoso.. Ah! minha cara, que a sua discípula corresponda aos cuidados do
mestre e garanto que estará perdida num abrir e fechar de olhos.
MIRVEL - Diga-me, porém, não receia nada da parte de seus pais? E se ela der com a língua
nos dentes?
MADAME - Não tenha receio, eu já seduzi o pai, pertence-me. Confesso que me entreguei a ele
para que fechasse os olhos. Ignora os meus desígnios e nunca ousará penetrá-los. Domino-o.
MIRVEL - Os seus processos são horríveis.
MADAME - E assim devem ser para que sejam eficazes.
MIRVEL - Diga-me, afinal, de quem se trata.'
MADAME - Chama-se Eugênia, é a filha de um tal Mistival, um dos mais ricos arrecadadores
de impostos. Tem trinta e seis anos, a mulher trinta e dois, a filha quinze. Mistival é tão libertino
quanto sua mulher é beata. Quanto à Eugênia, em vão tentaria pintá-la, faltam-me os pincéis.
Pode estar convencido de que nem você nem eu vimos no mundo criatura tão maravilhosa.
MIRVEL- Já que você não a pode pintar, ao menos faça um esboço para que alimente a minha
imaginação com o ídolo em cujo altar sacrificarei.
MADAME - Pois bem, os longos cabelos castanhos, que descem até as coxas, a pele é de uma
brancura de neve, o nariz aquilino, os olhos ardentes e negros como ébano, aos quais ninguém
resiste. Quanto a mim, não imagina as tolices que faria por eles. Os cílios são traçados a pincel,
até as pálpebras são expressivas, a boca é pequena, úmida e fresca, os dentes perfeitos. Um de
seus maiores encantos está na elegância com que sua linda cabeça se ergue dos ombros, no ar de
nobreza que tem quando a volve. Eugênia é desenvolvida para sua idade, parece ter dezessete
anos; a cintura é fina e os peitinhos cheios, de uma beleza incomparável! Dão apenas para
encher a mão de um homem honesto, tão macios e brancos... Perco a cabeça quando os beijo!
Sob as minhas carícias ela se anima, a alma transparece no brilho de seus olhos. Não conheço o
resto, mas a julgar pelo que já vi, jamais teve o Olimpo semelhante divindade... Ouço barulho: é
ela! Saia pela porta do jardim para não a encontrar e venha na hora exata.
MIRVEL - Como não hei de chegar na hora, para contemplar o que você tão bem descreveu?
Nem sei como sair no estado em que me encontro... veja só, dê-me ao menos um beijo, minha
irmã, para que me satisfaça até então! (Madame beija-o, acaricia-lhe o pênis intumescido sob as
calças, e ele sai precipitadamente).